Asas de Flor

Poesia em seu coração

Textos



Acima das mentiras dos jornais

Debaixo do sol não era tempo de folhas formosas, nem de folhas caídas, era tempo de buscar o mundo que Deus pôs no coração do homem; tempo de voltar o olhar da terra para os livros, colher frutos de doutrinas - caídos naturalmente -, e experimentá-los de vivo.
De manhã, de tarde, de noite, ferviam as corrupções. Vede o que eu aqui afirmo: de manhã, de tarde, de noite, ferviam as corrupções.
Meu pai, via não vendo, estava não estando, amava não amando. Meu pai tinha algo para esquecer.
Eu vivia perto dos homens, estranhamente, não sabia sentir-me, sabia somente que era bom me fazer limpa, me deixar clara, me deixar pura; banhar-me com água de ervas santas para me proteger. Sal não usava, porque faltaria ao pão dos pobres.
Em tempos de buscas, alguns silenciam. Minha mãe se deu a um corte, ou seja, foi para onde nada existia. Só alguns achavam que fugia de uma culpa. Culpa minha, nunca confessada ao padre: eu furtara comida. 
Aliviou-me o coração conseguir confessar aos olhos dela que sofriam em dolorosos abrir e fechar e esperar, que em tempos de buscar certa vez eu cumpri de trazer. Era sábado de aleluia.
E ela se foi serena, sendo-me impossível descrever com outra palavra o que estava nela, desconcertantemente tão iluminada quanto pálida, quando eu, sua menina, me espantava com a ousadia do anjo da morte. Via-o roubá-la de mim no exato momento em que pela primeira vez a vida se apresentava em nudez com o esplendor dos espetáculos que apresentam musicais tendo o som único do silêncio ao fundo.
Meu pai ainda não conhecia o tempo de falar. Triste, muito triste, se deu à bebida, e às vezes, ao trabalho de auxiliar, e como seu trem, era dotado de algo que oscilava e se pendia nas curvas em desejos de se elevar a velocidades perigosas.
Então aconteceu de o mundo cair e meu pai quebrar o silêncio. Sob os ruídos de uma tempestade de aço, numa tarde clara “como se aquela tarde fosse como uma outra qualquer”, o trem da minha infância veio a despencar quatrocentos metros ribanceira abaixo. 
E, quando todo o infinito se cobria de poeira ensolarada, tive forçosamente que me envolver num mar de dor, me afundar na lama; procurar um rosto entre dezenas de rostos pintados em tons na versão terra e sangue; todos amados e todos iguais ao de uma criança clarinha que, quando já poderia estar tão perto do céu, ali fora vista como um anjo branco que alivia sofrimentos.
Uma semana depois, viram-me abraçar o homem que me deu a vida. 
Porque se esconder, se a impressão que tinha era de que aquele abraço seria o último?
Por ali ficamos?
Não.
Inocentes levitamos, acima das mentiras dos jornais.

 
Matilde Diesel Borille
Enviado por Matilde Diesel Borille em 28/01/2018


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