Asas de Flor

Poesia em seu coração

Textos


Talvez mais tarde
 
Uma mulher de meia idade, extremamente exigente no que se referia à sua aparência abriu a porta de um consultório médico e atravessou a sala de espera em estado de choque, mas como todos ali estavam estressados com a demora da sua consulta, a definitiva impressão de que ela estava lutando com algum problema muito grave não foi notada por nenhum deles. Talvez mais tarde, uma ou duas pessoas, para justificar o tempo perdido na clínica, se referisse a ela como uma mulher que se demorava nas consultas por um período de tempo um pouco mais que o necessário.
Iris chegou ofegante e um pouco molhada ao local em que a mãe a estaria esperando, mas não a encontrou. Extremamente envergonhada pelo atraso, pediu à secretária para conversar com o médico que a atendeu.
Lá fora, gotas de chuva caíam e batiam no compasso do assustado coração de Maria, e dentro dela, palavras assustadoras: grave e maligno, grave e maligno, grave e maligno...
Aos poucos a ideia de caminhar na chuva foi lhe parecendo muita boa, talvez a ajudasse a assimilar a morte, então foi deixando a proteção das marquises, lentamente, economizando energia. Logo, não mais via a chuva, que fria e serena caía sobre seu corpo, pois muito pouco se vê depois que o mundo desaba.
Maria atravessou a rua sem pensar, seguiu em direção ao sul, descobriu-se atravessando uma praça e quase sentiu que gostava daquele lugar. Sua mente tentava encontrar algo que sempre estivera ali. Tinha que encontrar. Teve a impressão de estar falando com as árvores, disfarçou, mudou a postura e a expressão e tentou se recobrar.
Sentiu o vento de outono provocando seu coração e que precisava continuar. Olhou em volta, visualizou a cúpula da catedral, e lhe pareceu que a igreja estava muito distante. Pensou que mesmo que estivesse próxima, não se dirigiria até ela, nela não entraria. Não poderia receber a benção de Jesus naquele estado, não macularia o branco piso com seus pés molhados e sujos, com seu coração descrente.
Voltou a olhar para a cúpula e numa tentativa de prece pronunciou algumas palavras molhadas e amarguradas e afastou-se dali, pensando que não tinha sequer que voltar para casa.
Não demorou a avistar alguns meninos jogando bola numa quadra esportiva, então colou o rosto na tela de proteção. Na sua imaginação, via seu pai com um radinho encostado na orelha: “Juquinha mata no peito, baixa na terra, passa por um, dribla o segundo, invade a área, fulmina, e é gol!”. Mas, na verdade, só ouvia o som de uma bola de couro batendo no piso de cimento. O apito do juiz e o som da decepção de uma parte da molecada fizeram-na voltar à realidade.
Não fazia nenhum sentido ficar ali, caminhou até encontrar uma rua estreita e barrenta, o que a fez sentir-se um pouco mais segura.
_ Jardins naturais, como os da mamãe! Rosas e margaridas vivendo no mesmo canteiro! _ pensou.
Quando avistou um pé de alecrim _ símbolo do amor e da morte _ espremido entre as ripas de eucalipto, não pode evitar um sorriso de lado. Colocou a mão pelo vão da cerca, arrancou um pequeno ramo e instintivamente colocou algumas das pequenas e finas folhas frescas e doces da erva na boca. Não fosse a fraqueza mórbida que sentia teria saboreado prazerosamente o gosto que lembra o orvalho que vem do mar.
Ali, o silêncio do dia era perceptível. Passos leves faziam-na avançar por pedras soltas afastando-a cada vez mais de caminhos previsíveis.
Como sempre acontece nos dias de chuva, naquela manhã, os pássaros não cantavam, os gatos seguiam silenciosos e rasteiros à procura de namoradas e o único vira-lata que encontrou ignorou-a.
Antes de deixá-lo totalmente para trás refletiu que as pessoas, em sua grande maioria, não apreciam andar pelas ruas em dias de frio.
Continuou caminhando, passos não muito firmes. Seus pés tocavam a calçada fria e molhada. As poças de água convidavam-na a brincar pelo passeio; subia, descia e parava para sentir o cheiro da terra molhada e das flores que se espremiam pelos vãos das cercas querendo alcançar a falsa liberdade das ruas.
Para testar seus reflexos apressou os passos, correu, pulou e rodopiou. A brincadeira exigia concentração, lembrou dos melhores momentos da sua infância: brincadeiras de amarelinha, pula-corda, cobra-cega...
Num piscar de olhos deixou de ser criança e elegantemente vestida ensaiou dançar um tango. Percebeu que não tinha um parceiro, mesmo assim não mudou a postura rígida que tinha assumido e continuou o ensaio com movimentos cada vez mais intensos e dramáticos e em seu devaneio havia um salão, uma orquestra harmoniosa e um bailarino que dançava com ela e a envolvia e prendia com suas mãos quentes e fortes... mas o devaneio acabou.
De repente, se viu deitada em uma lama mole, com metade do corpo submerso, olhando para o céu acinzentado da manhã. Tudo culpa de uma pedra solta. A lama podre fedia e ela ali, sozinha, sem ter ao menos um cão vira-lata para lamber suas feridas.
O que restou da elegante bailarina foi uma boca suja que deixou escapar um nome feio com direito a um eco intenso que fedia mais que toda a lama que a envolvia.
Esquecendo a postura rígida que a derrubara foi levantando de modo suave e colocando-se na posição sentada com os joelhos dobrados e as mãos sobre eles. A seguir, como numa peça teatral, veio o segundo ato: o momento de colocar-se em pé. O ar parecia parado e tenso ao seu redor e ela percebeu que seus joelhos tremiam. Ali estava ela: a maculada imagem da mulher grude. Cativadas pela boneca de barro na qual Maria se transformara, uma a uma, muitas pessoas foram se juntando. Ela olhou demoradamente para todos e não gostou da expressão debochada que seus rostos estampavam.
_ Por que saíram de suas casas em dia de chuva? _ Sentiu vontade de gritar. _ O que é que estão olhando? Nunca viram uma mulher cair? Ou nunca viram uma mulher se levantar? _ desejou complementar.
A vontade foi a de sacudir a massa pastosa que escorria do seu corpo de modo que atingisse aqueles que riam dela, e percebendo que o silêncio não estava mais ali e que mal conseguia respirar, desejou voltar para as profundezas negras dentro da qual ela tinha deitado por um momento. Mas apenas deitou seu corpo cansado e sujo sobre um tapete de pedras irregulares, ao lado da poça fétida, que por alguns minutos foi seu leito.  Seus olhos estavam ardendo, como se alguém tivesse esfregado limão neles. Virou o rosto para o céu e ficou com os olhos cerrados até o ardume passar um pouco. Passados alguns minutos, tentou piscar, mas não conseguiu. Continuou de olhos fechados, agora, além do ardume, sentia-os úmidos e embaçados. Então, pela primeira vez, sua boca experimentou o gosto de sal, de açúcar e de terra ao mesmo tempo.
As folhas ainda gotejavam da chuva quando ouviu uma voz tremida.
_ Mãe, o que está acontecendo?
Maria adoraria não ter ouvido aquela voz; adoraria que a filha não estivesse lá. Mas ela estava, ao seu lado, em carne e osso, na postura que ficam as meninas quando entram na puberdade e os seios começam a crescer.
É sempre difícil ter a certeza de que se é responsável por gerar sentimentos negativos nas pessoas. Com essa impressão estampada no olhar, Maria se levantou e parecendo um patinho com hepatite andou desengonçadamente até o carro. Esperou autorização da filha para entrar, sujar e infectar o espaço bem cuidado.
_ Obrigada por estar aqui filha. _ Foi a única coisa que conseguiu dizer.
Chegou em casa acompanhada. Ficou esperando que sua acompanhante perguntasse alguma coisa, mas nada aconteceu. O silêncio e o frio faziam-na tremer muito.
_ Sinto muito, filha! _ disse cheia de preocupação. _ Tanta coisa aconteceu hoje e eu te causei sofrimento. Embora pareça loucura, eu posso explicar.
Deveria dizer mais alguma coisa, mas não conseguiu.
Demorou no banho bem mais tempo que o necessário. Apesar do sofrimento e do cansaço que sentia refletiu que deveria ter tomado banho lá fora e passou a questionar-se: Quem limparia o banheiro? E o carro? E o casaco cor de vinho, estilo sobretudo de Iris?
_ Será que já está se sentindo limpa, mãe? – perguntou Iris.
Quando Iris fez esta pergunta ela estava lavando a parede do banheiro, usando apenas as mãos e a água quente do chuveiro _ na verdade, estava enrolando. Desejou ver-se no espelho antes de sair, não para ver se a lama trouxera algum benefício para sua pele, mas para ensaiar as palavras que usaria em sua defesa, não conseguiu, era impossível secar o espelho devido o excesso de vapor produzido pela água quente do chuveiro. Saiu com a pele toda enrugada e arrepiada e iniciou uma sessão de espirros _ desculpas para sentar no sofá, enrolar-se em uma manta e fazer-se compreender.
Parada à porta da sala estava uma jovem que tinha escondido por trás dos lindos olhos verdes o olhar sereno de sempre, por isso olhava, naquele momento, com um olhar lânguido, que via somente o que queria ver: uma mulher de meia idade, que tinha olhos meigos e bonitos, que era extremamente exigente no que se referia a sua aparência, que era sua mãe, sua amiga, e que possivelmente não a veria concluir a faculdade, casar, ter filhos...
_ Tome. Fiz um chá com canela e mel, vai te aquecer _ disse Iris abraçando a mãe por trás.
_ Eu adoro quando você mexe no meu cabelo filha.
Iris lembrou que abraçava uma mulher menina chamada sempre a sonhar, então, fechando os olhos, mergulhou seus dedos nos cabelos da mãe, e no silêncio que se fez, pode sentir a garganta seca, alguma coisa a lhe queimar o estômago, a cabeça pesada e uma dor pintada de cor forte e quente.
Como poderia dizer a mãe que também sentia dor e que a sua dor era no coração? Lembrou do que o neurocirurgião disse: quando você cuida de gente que está morrendo, acreditar em Deus ajuda.
Precisavam de um milagre e decidiu que a mãe não iria para o céu de imediato. E começaram um jogo, que as duas adoravam jogar: viver e se divertir (quando a cabeça das duas fingia não parecer explodir).
_ Eu adoro tudo em você mãe, tudo o que faz, tudo o que é e tudo o que virá a ser.
Alguns dias depois, após as duas colarem várias fotografias nas paredes do quarto de Maria, ela pediu à filha uma pequena demonstração de amor.
Sentou-se de pernas cruzadas com a de cima balançando rápido, os olhos fixos no chão, e Iris sem medo que a mãe ouvisse seu coração numa demonstração de amor profundo e afeição sem limites, delicadamente passou a máquina no que ainda restava de cabelo na cabeça da mãe.
_ Eu adoro quando as pessoas mexem no meu cabelo, adoro fazer os outros rirem, adoro quando me abraçam por trás, adoro...viver!
 
 
Matilde Diesel Borille
Enviado por Matilde Diesel Borille em 24/07/2017
Alterado em 25/07/2017


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